autoral

Por que choras, Antígona?

Desde que me entendo por gente, diferentes posicionamentos são tomados como oposição. A discordância se torna insulto, verdadeiro ataque pessoal ao emissor de opinião. Cometerei, agora, o acinte da polêmica. É que a isenção anda me irritando em demasia.

“A economia não pode seguir parada”. É o que mais ouço, com algumas irrisórias variantes. Muitos parecem compactuar com uma esdrúxula seleção natural, um quem tiver que morrer, que morra (contanto que não tenham que abrir mão da faxineira). É o espírito do povo que se reflete no presidente da república das bananas, numa vil pergunta: “e daí”?

E daí que seguimos detrás de grossas portas fechadas, assistindo corpos serem atirados em covas improvisadas, da maneira mais indigna possível. O grande dilema de Antígona se refaz, eis que não temos nem mesmo o direito de velar e enterrar nossos mortos.

A civilização faliu. Todo mal-estar advindo da convivência social não me parece valer o esforço do contrato social. Não estamos seguros pela existência do estado. Estamos ameaçados por ele.

Ontem, estava esperançosa; neste fim de noite, para lá de desenganada. O povo brasileiro é verdadeira expressão do triunfo da polis democrática: racista, elitista e machista. A diferença é que eles tinham Sófocles.

P.S.: escutem o podcast do Ed Kivitz no Spotify. Foi o start deste testículo.

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