autoral, poema, versos

Apátrida

Na rua,

desfila uma milícia

que não me representa.

Na tela,

vocifera essa polícia

que me detesta.

Em casa,

entocada a burguesia,

que nunca tem pressa.

Em tese,

pulsa em meu peito

um coração brasileiro.

Na prática,

todo meu corpo

é apátrida.

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autoral, dedicatória

À mestra, com carinho

Existem professores que nos dão permissão para sonhar. Em plena adolescência, um momento de imensurável empuxo, de possibilidades que apontam tanto para o progresso quanto para a ruína, encontrei um verdadeiro farol norteador.

Dentre um sem fim de coisas, Lourdinha me ensinou a apreciar “Grande Sertão: Veredas”, me incentivou a escrever para a revista literária da escola, e demonstrou que é possível dar aula sem paternalizar, ameaçar ou impor.

Lourdinha caminhava pelos corredores da Fundação Torino meio distraída, mas sempre disponível, estilosa e leve. Engraçado, tem gente que é tão pesada que flutua. Aquele pairar que só é possível para quem tem gravitas. É gente que já leu muito, viveu muito, e que carrega em seus calcanhares toda espessa sensibilidade deste mundo.

Quando pensei em quem poderia escrever a orelha do meu primeiro livro, só ela me veio em mente. Mais de dez anos se passaram desde a última vez que nos vimos, prova cabal de que Exupéry estava certo: o essencial é mesmo invisível aos olhos.

Ao ler o texto que ela fez para mim, senti uma felicidade desmedida. Registro-o aqui, na íntegra. Poucas vezes me senti tão homenageada, tão compreendida, tão conectada. Um bálsamo.

Para poeta em pânico

Enquanto lia estes pequenos poemas, me lembrei de uma fala de Ferreira Gullar: “Cada poeta aumenta o mundo”. Ana Priscila aumentou o meu e, numa viagem inesperada, fez com que ele ficasse mais bonito. Acredito que fará o mesmo com outros leitores, com seu “Poeta em pânico”, título adorável!

Deu quentinho no coração ver poesia em verdades tão próximas, tão reconhecíveis, tão humanas, tão femininas, tão delicadas, tão cheias de humor. E tudo em pequenos textos curtos, aparentemente fragmentados, em que as palavras têm total liberdade de trocarem de lugar, de ocuparem outra posição, criando um jogo estimulante de imagens inusitadas, que fazem eco na imaginação e despertam a sensibilidade.

À medida que ia passeando pelos versos, tinha a sensação de desvendar novos sentidos, pequenas trilhas na alma, que se entrecruzavam rumo à autodescoberta. Pequenas luzinhas piscavam momentaneamente, iluminando um percurso não desconhecido, mas ignorado e pouco visitado.

Uma experiência reveladora! De repente ali estava eu, ali vi todos nós, nus e verdadeiros, desprotegidos de todas as indumentárias que encobrem, camuflam e sufocam nossa individualidade. Acostumados a vê-la massacrada continuamente, vamos deixando que morra e, sem ela, nos enfraquecemos. E precisamos redescobri-la e reconquistá-la, para nos mostrarmos inteiros, no melhor e no pior que podemos ser.

Quanto tempo não percorria esses caminhos? Não sei, mas “Poeta em pânico” me fez revisitar um universo encoberto, que de repente se desnublou. Ouso, então, fazer a minha ‘viagem’ onírica e realista, para mostrar essa descoberta com as palavras da autora.

Tanta falta de sossego

A dormência me toma, a vista fica escura. Estou sem rumo, caçadora de mim. Sem véu, sou sã, mas estou adoecida. Ando mais do que complicada. Desnudei minha carência, contendo cada moído pensar, perdida no enredado cósmico. Sigo sufocada. Se existe paz, não sei dizer. Não sou de abraçar qualquer um. Ao menos assumo com sinceridade: não sei mais como continuar. No peito é só pontada! A lâmpada nitidamente me enjoa. O barulho claramente me ofusca. Queria tanto ter certezas cabais. O cansaço pesa como uma bigorna, mas a mente não quer descansar, sigo desajustada.

Alô? Está me ouvindo?  Existe no mundo algum artefato que pode curar meu mal-estar? Respiro com dificuldade, meio tonta. Sei que hoje vou morrer. Vêm à tona medos crescentes. Olá. Knock, knock. Alô? Está me ouvindo?  eco ßà (oce). Frio na barriga, pulso acelerado. Cabeça pulsa e lateja sem trégua. Olá. Knock, knock. Estou sem rumo. Na trama do presente, meu futuro segue ausente. Também não nasci para ser nada demais. Existe no mundo algum artefato que pode curar meu mal-estar?

Minha nossa senhora, desate cada nó de angústia em mim.

A prisão é ilusão do eu

Perdi a partida? Logo eu que sempre fui tão ágil? Parem o planeta, eu quero ascender.

A água do chuveiro traz apaziguamento. Me vesti nos trinques. Em claro atino, desativei o modo hibernar, estou pronta, pronta para duelar! Rumei para a guerra sangrenta. Duelei com meu eu trucidado. Poucas vezes senti tanta fúria. Os tambores rufam estridentes, se propagando em meu coração. O ciclo do que era pode ter fim. Parecia real aquela miragem.

Voltei ao estado natural. Distraída da vida, segurei a onda, que sempre nadei. Venci. Aí, enxerguei completamente, au naturel, eco ßà (oce).  Knock, knock. Sou porque você está aí. Sou porque você está aí. Sou porque você está aí. Sou porque você está aí.

Casa comigo? Enfim, a sós, nos amamos sem cautela, felizes para sempre.

Fica aqui o convite!  Enveredem por esses caminhos e, fortalecidos, façam sua jornada intimista!”.

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autoral, poema, versos

Saí da toca

Desde que comecei a cursar Psicanálise e a fazer análise pessoal, a poesia outrora mortificada em mim ressurgiu. O hiato de mais de dez anos foi brutal, um período árido, de muito pouca (para não dizer nenhuma) inspiração.

Nos últimos tempos, os escritos foram brotando de maneira tão profusa, que em pouco tempo já havia material suficiente para um livro. Resolvi colocar a cara no sol, à la Beto Jamaica. Procurei por possíveis editoras, e o resultado foi mais que inesperado: fui aceita por todas. Fiquei com a Letramento pela sensibilidade na proposta para novos autores.

Enquanto “Poeta em Pânico” não sai da toca, saio eu. Criei esse site assim no susto, sem know-how nenhum, mas não podia me dar tempo para tirar a bunda da seringa.

O objetivo principal é compartilhar meus escritos. Sem mais delongas.

“Máxima”

O fundo do poço

é o fim da picada

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