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Maria – não esqueça que eu venho dos trópicos

Nos últimos anos, tenho me interessado exponencialmente por escultura. É um tipo de arte muito enigmática, que começou a me despertar um desejo de aprender a fazer algo com as próprias mãos.

Mas, tem gente que já nasce iluminada. É o caso de Maria Martins (mais uma adição para a galeria dos excepcionais artistas mineiros que admiro). O documentário Maria – não esqueça que eu venho dos trópicos, é mais uma pérola escondida na grande rede mundial de computadores. É como topar com um pedaço de uma memória recalcada, que haveria de emergir de algum modo.

A direção de Ícaro Martins é na medida exata. Apreciei cada escultura, pintura, desenho e gravura exibidos. Quase podia sentir a aura de Maria através da tela, numa rara experiência de apreciação artística. As esculturas são um caso à parte: transcendentalmente lindas, viscerais, chocantes.

A trilha sonora de Nelson Ayres e Ricardo Mosca ajuda muito na imersão da psiquê da artista. Cria-se um clima envolvente, sem apelar para violinos dramáticos ou estribilhos. É uma jornada de imersão, de compreensão de uma mulher cosmopolita, sensual, brilhante, mas também cheia de dores e mistérios.

Não sei como só descobri a existência dessa artista completa apenas em 2020. Sei, sim. Foi futucando a Mubi… mas, enfim. Como não se fala nesse monumento de mulher na escola, na mídia, em qualquer lugar? Respeitada em toda a Europa, embaixatriz do Brasil, organizadora da primeira Bienal de São Paulo, amiga pessoal de Picasso, amor da vida de Duchamps, dentre tantas outras coisas.

Minha alma feminina está plenamente nutrida para o ano. A obra de Maria Martins é simplesmente tudo de bom. Mil estrelas!

MARIA – Não Esqueça que Venho dos Trópicos
Documentário – Brasil – 81 minutos – 2017
Ficha técnica
Direção: Francisco C. Martins
Codireção e Produção: Elisa Gomes
Entrevistas: Malu Mader
Atores: Lucia Romano, Celso Frateschi
Produção Executiva: Elisa Gomes, Iside Mesquita
Direção de Fotografia e Câmera: Hugo Kovensky, ABC
Montagem: Idê Lacreta
Roteiro: Marta Góes, Idê Lacreta, Francisco C. Martins
Direção de Arte: Fernando Lion
Fotografia das Obras: Vicente de Mello
Trilha Sonora: Nelson Ayres, Ricardo Mosca
Coordenação de Pesquisa: Eloá Chouzal
Direção de Produção e Licenciamento: Ariene Ferreira
Supervisão de Som: Miriam Biderman, ABC
Desenho de Som: Ricardo Reis, ABC

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Tempo de cavalos bêbados

Mal entrei no Mubi, e já estou maravilhada. Por que choras, Netflix?! Em minha segunda incursão na plataforma de cinema de arte, topei com este interessante mix entre documentário e ficção.

Falado majoritariamente em curdo – idioma belíssimo, mas praticamente inexistente na história da sétima arte, por motivos especialmente políticos – essa é uma daquelas crônicas visuais que massacram e afagam o espírito do espectador.

O diretor iraniano Bahman Ghobadi (que já foi assistente de direção do compatriota e magnífico Abbas Kiarostami) faz uma bela estreia. A narrativa acompanha cinco irmãos órfãos que vagam na fronteira entre Irã e Iraque, na mais completa penúria. O irmão mais velho procura desesperadamente por emprego, um outro está gravemente doente; cabe à irmã, talvez, a mais cruel dentre todas as sinas. Sem spoilers.

“Tempos de cavalos bêbados” é uma meditação sobre a brutalidade da natureza humana. O título do filme alude às mulas que peregrinam com os humanos pelo deserto hostil, dominado por minas terrestres. Só mesmo alcoolizados esses animais conseguiriam aguentar a aridez da própria existência. Contrabando, comportamento, amor fraternal… uma estranha mistura de temas, que se demonstra exitosa (apesar de uma certa crueza na direção de arte).

★★★★★★★★ (8)

Tempo de Cavalos Bêbados / Tempo de Embebedar Cavalos (Zamani barayé masti asbha) — Irã, 2000
Direção: Bahman Ghobadi
Roteiro: Bahman Ghobadi
Elenco: Ayoub Ahmadi, Rojin Younessi, Amaneh Ekhtiar-dini, Madi Ekhtiar-dini, Kolsolum Ekhtiar-dini, Karim Ekhtiar-dini, Rahman Salehi, Osman Karimi, Nezhad Ekhtiar-dini
Duração: 80 min.

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