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Francisca Júlia

Um monumento de poeta que descobri há pouco. Ignorada pela crítica, virtualmente esquecida pelo tempo. Um salve a esse hino de mulher. O poema se chama Dança das Centauras:

“Patas dianteiras no ar, bocas livres dos freios,

Nuas, em grita, em ludo, entrecruzando as lanças,

Ei-las, garbosas vêm, na evolução das danças

Rudes, pompeando à luz a brancura dos seios.

A noite escuta, fulge o luar, gemem as franças;

Mil centauras a rir, em lutas e torneios,

Galopam livres, vão e vêm, os peitos cheios

De ar, o cabelo solto ao léu das auras mansas.

Empalidece o luar, a noite cai, madruga…

A dança hípica pára e logo atroa o espaço

O galope infernal das centauras em fuga:

É que, longe, ao clarão do luar que empalidece,

Enorme, aceso o olhar, bravo, do heróico braço

Pendente a clava argiva, Hércules aparece”

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Todo mundo deveria ler este poema

E tenho dito.

A condição poética

um poema de Czeslaw Milosz
traduzido por Ana Cristina César e Grazyna Drabik

Como se tivesse em vez de olhos binóculos ao contrário, o mundo
se distancia e pessoas, árvores, ruas, tudo diminui, mas nada,
nada perde a clareza, fica mais denso.

Já tive antes momentos assim, escrevendo poemas; conheço então
a distância, a contemplação desinteressada, sei assumir
um eu que é não-eu, mas agora é sempre assim e me pergunto
o que significa isso, se entrei numa permanente condição poética.

As coisas difíceis antes, agora são fáceis, mas não sinto desejo
forte de transmiti-las por escrito.

Só agora estou sadio, e era doente, porque o meu tempo
galopava e afligia-me o medo do que viria.

A cada momento o espetáculo do mundo é para mim de novo
surpreendente e tão cômico que não entendo como a literatura
podia querer dominá-lo.

Sentindo fisicamente, ao alcance da mão, cada momento, amanso
o sofrimento e não suplico a Deus que queira afastá-lo de mim:
por que o afastaria de mim se não o afasta dos outros?

Sonhei que me encontrava numa estreita borda sobre o oceano
onde se viam nadando enormes peixes marítimos.
Tive medo que, se olhasse, cairia. Virei então,
agarrei-me nas asperezas da parede rochosa,
e movendo-me lentamente, de costas para o mar, cheguei
a um lugar seguro.

Eu era impaciente e irritava-me a perda de tempo com coisas triviais
incluindo entre elas a faxina e a preparação da comida. Agora
corto com cuidado a cebola, espremo os limões, preparo
vários tipos de molho.

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Observações


Uma das etapas do método científico consiste em observar sem julgamento. Faz-se uma descrição analítica do objeto em estudo, sem nenhum interesse na digressão interpretativa. Talvez, justamente por isso, a ciência neste país seja tão escassa. Vivemos numa era pré-científica.

Precisamos agir com cientificidade. Depois de observar, é preciso manter uma certa austeridade. O impulso da palavra pode parecer irresistível, mas com o devido treino, aprendemos que se não há nada de bom para falar, melhor calar. Isso não quer dizer que devemos rasgar seda o dia inteiro, pelo contrário. Os elogios devem ser poucos e sinceros.

Numa cultura de excessos, de mil e um conteúdos imagéticos, temos que nos comportar com inteligência. Temos que ler, ouvir e assistir coisas incomuns. Ou, pelo menos, ler, ouvir e assistir coisas comuns, mas com um olhar afiado.

Acabei lançando interpretações, em lugar de observações. Fico tentada em alterar o título do post. Resisto, e mantenho o que foi escrito. Aqui está um testemunho das ruminações do dia. Quiçá meu eu futuro lerá este texto e discordará de mim.

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