autoral, cinema

The midnight gospel

O problema filosófico que estrutura toda existência humana é justamente o da finitude. Os seres humanos fazem de tudo para desviar da natureza abrasiva da vida, mas a única coisa de que podem ter certeza? Ninguém pode escapar da morte.

Essa é a premissa da série “The midnight gospel”. A isso se adicionam inteligentes intertextualidades com religiões, mitologia egípcia, realidade virtual, etc et al, num visual mega colorido de jogo de plataforma. Em cena, acontecem sete coisas diferentes ao mesmo tempo, e achar todas as referências é algo tão minucioso quanto coletar easter eggs.

O personagem principal é Clancy. Verdadeiro arquétipo do pré-adolescente/jovem/adulto que está distraído demais para verdadeiramente se auto conhecer, mas que se acha entendido e iluminado. Inclusive, os personagens com quem Clancy conversa sobre magia e religião têm vozes iguais às dos narradores de aplicativos como headspace e calm. Sacada em cima de sacada!

Toda a série é estruturada em conceitos psicanalíticos. Da fase intra uterina (antes de se lançar a outros universos, Clancy olha dentro de um útero), à oral (o lançamento, em si, é feito por um canhão que é um seio). Clancy não se assusta com nenhuma das situações absurdas com as quais se depara. Tudo que importa para ele é se entorpecer de estimulações externas e gravar podcasts que, basicamente, ninguém escuta.

Não por acaso, Clancy só consegue fazer um verdadeiro exame de consciência no episódio em que tem que lidar com a perda de sua mãe – o melhor da temporada, por sinal, sem desmerecer os outros episódios, que são simplesmente geniais. Numa explosão de conceitos e cores dignas de “The Fountain”, de Aronofsky, o sétimo episódio é uma obra-prima.

O sujeito pós, pós alguma coisa (no Brasil, há quem ainda está a viver na segunda revolução industrial) tenta mascarar seu intrínseco destino, a precariedade de ter um corpo feito de células que irão decair e fenecer. Para tal, o dito sujeito se distrai com dezenas de janelas abertas no smartphone. Se entope de conteúdos como netflix, amazon prime, spotify, deezer, twitter, instagram… vale tudo para se distrair da própria efemeridade. E quem pode dizer que não se identifica?

P.S.: um beijo para minha amiga Isabela, que foi quem me indicou a série.

Padrão

5 comentários sobre “The midnight gospel

  1. Que genial! Muitas coisas em Midnight Gospel passaram batida pelo meu olhar ingênuo, mas lendo este texto eu fiquei muito mais admirado com o que vi na série( que ainda não terminei). E de fato a conclusão efemeridade é muito legal porque me lembra sempre do nosso esforço psicológico – desculpa se estiver usando o termo errado- para esquecermos a nossa incapacidade animal, humanos sem cascas, garras, presas, etc… etc… Só com este involucro sensível e facilmente abatido por inimigos invisíveis. Ah que maravilha de texto. Muito obrigado por essa escrita leve e fácil.

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    • Que bom que curtiu, Jonatas. Essa série tem muita referência, pensei até em ver de novo e fazer um reaction vídeo pra cada episódio hahahaha!
      É isso aí, esforço psicológico extremo… humanos sem cascas não podem fazer muito mais que isso. Se tiver assistindo uma série tão boa quanto, nessa pegada, aceito sugestão. Eu curti muito Bojack 🙂

      Curtido por 1 pessoa

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