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Maria Lúcia Alvim

Eis um poema que me atingiu em cheio. Fazia tempo que eu não tinha uma experiência de corpo tão forte frente ao verso. Senti uma espécie de cólica, seguida de alívio. Especialmente o início do poema… um hino.

A poeta? Tinha que ser mineira, claro.

MÁGICO DESAFIO

Um filho não deveria

ser feito

para cumprir mandamentos, para

povoar

a solidária solidão de pares amorosos, improvisados e mesmo contrafeitos —

o filho, quando concebido

seria para

provar apenas isto: 

a matéria ou

mistério

ou vida

desafiando o pensamento.

(De Pose, 1968)

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Versões

Uma faca se ergue contra a esposa.

O entorpecimento corta até a beira do osso.

Uma veia trêmula pula no pescoço.

O menino não vê uma faca, vê um facão.

O pai, de fato, não corta, mas parte seu coração.

O menino, desde então, sente dor no pescoço.

Dizem que puxaram uma faca… ou foi um facão?

Foi um corta e não corta, puxão de cabelo,

chave de pescoço. E casar já deu gosto?

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Poema inacabado

É como

uma cimitarra trespassada

pelo vértice do plexo braquial.

Logo o hipotálamo grita, destila 

todos os sinônimos de fatal.

Lancinante é a dor de quem 

honra as verdes veias que porta.

Uns minutos poucos devolvem

o sopro vital à casca corpórea

(nada que 1/4 de terço rezado não resolva).

Ao noroeste, o contorno do monte 

se espalha no horizonte –

rocha dócil, virgem de escalamento.

A rota até o cume não tem atalhos,

um bom bandeirante vai cepando galhos.

Só pela poda um novo ramo é capaz de nascer.

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Alfa 

Bactérias envoltas por enxofre

prenunciam cambrianas algas.

A seguir, moluscos e micelios.

Entram e saem éons, surgem 

os primitivos vertebrados.

A própria Eva sai de uma costela.

Ômega 

Hóstia a nos livrar de toda 

e qualquer moléstia 

(Jesus transfigurado, elo

entre calvário e ressurreição).

Nuvem guia pelos desertos,

verdadeiro motor da volição.

O meio é o fim. O princípio é o meio.

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Um imprevisto desconforto

invade o pâncreas

advindo da vesícula.

Não contente com o esfacelo,

irradia para o estômago,

e

s

c

o

r

r

e

g

a

pelo duodeno.

Sem mais nem menos,

chega-se ao patamar metastático –

sobressalto pós, pós maligno.

Difícil engolir todos estes

cacos de vidro que atravessam

a traqueia.

Como a lava infesta a terra,

erupções corrompem a tez

neste imperecível domingo.

Vitória da Conquista, 30 de julho de 2022.

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Diário 19

———————————

Passarinhos cantam a plenos pulmões

pois:

não conhecem COVID,
não se preocupam com julgamentos

nem trabalham quarenta e quatro

horas semanais.

Os passarinhos urbanos não sabem,

mas venceram.

Não pensam em arritmia,

não padecem de psicose,

dermatite seborreica ou psoríase,

como os humanos animais.

Passarinhos alegremente piam

com o bom humor típico

de quem nunca perdeu a paz.

Ana Luz

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Diário 18

O nome Adélia Prado evoca um certo respeito logo de cara. Um bebê chamado Adélia já chega no mundo se impondo, com uma autoridade de gente para lá de séria. A pequena em questão nasce em Minas Gerais, o estado do povo que “come quieto”, vulgo melhor estado da federação. Ademais, o gentílico de Adélia é um prenúncio ds sua proximidade indissociável com todos os assuntos referentes à fé cristã, eis que ela nasce em Divinópolis, em 1935.    

O feminino está sempre em foco na poesia adeliana, bem como um catolicismo ferrenho, sempre tendo como pano de fundo as trivialidades da vida. Toda linguagem adeliana reflete essa essência de simplicidade, sem perder de vista o conceito mais metafísico que há: Deus. Adélia consegue um equilíbrio incomum para uma poeta, pois exerce os papéis de escritora e dona de casa com maestria (aparentemente sem se ressentir de nenhum dos dois).

Nos anos 70, Adélia – que ainda atuava como professora – capturou a atenção de outros dois mineiros. Affonso Romano de Sant’Anna, grande escritor e crítico literário, foi quem primeiro leu Adélia. Encantado, enviou o material para Carlos Drummond de Andrade, itabirano que dispensa comentários. Com o incentivo deste último, Adélia finalmente alcança proeminência nacional, e sua atividade principal de trabalho se torna a escrita.

Adélia teve cinco filhos, dirigiu um grupo de teatro, foi secretária de cultura de Divinópolis em duas ocasiões diferentes, dentre tantas outras empreitadas. Mas, sem dúvida, o que Adélia fez de melhor foi escrever. Prêmios como Jabuti, ABL de Literatura, Fundação Biblioteca Nacional, APCA e Clarice Lispector coroam a carreira desta mulher sem igual. Ela segue viva, em Divinópolis, onde vive com Zé – seu marido há mais de 60 anos. Abaixo, dois dos meus prediletos poemas de Adélia Prado:

Trégua

Hoje estou velha como quero ficar.
Sem nenhuma estridência.
Dei os desejos todos por memória
e rasa xícara de chá.

Endecha

Embora a velha roseira insista neste agosto
e confirmem o recomeço estas mulheres grávidas,
eu sofro de um cansaço, intermitente como certas febres.
Me acontece lavar os cabelos e ir secá-los ao sol, desavisada. Ocorre até que eu cante.
Mas pousa na canção a negra ave e eu desafino rouca,
em descompasso, uma perna mais curta,
a ausência ocupando todos os meus cômodos,
a lembrança endurecida no cristal
de uma pedra na uretra.

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Diário 17

Passei o sábado todo praticamente imóvel, em silêncio, sozinha. A solitude é uma grande benção, um conforto, um alívio. Sou naturalmente introvertida, muito embora essa seja a antítese da visão que meus amigos mais próximos devem ter de mim. Somos todos múltiplos, cheio de facetas sociais. Aproveito para publicar aqui os resultados do teste “16 personalities”, que considero bem certeiro:

Personalidades de Mediador são verdadeiros idealistas procurando o melhor mesmo nas piores pessoas e eventos, procurando um jeito de melhorar as coisas. Enquanto eles podem ser vistos como calmos, reservados, ou mesmo tímidos, Mediadores têm uma chama interior e uma paixão que pode realmente brilhar. Composto por apenas 4% da população, o risco de se sentir incompreendido é infelizmente alto para as pessoas com personalidade de Mediador – mas quando eles encontram pessoas com a mesma opinião para passar seu tempo, a harmonia que sentem será uma fonte de alegria e inspiração.

Se eles não tomarem cuidado, os Mediadores podem perder-se em sua busca pelo bem e negligenciar o cuidado que a vida exige no dia-a-dia. Os Mediadores muitas vezes derivam em pensamento profundo, desfrutando contemplando o hipotético e o filosófico mais do que qualquer outro tipo de personalidade. Na ausência de controle, as personalidades do Mediador podem começar a perder contato, se retirando e entrando em “modo eremita”, o que faz com que os amigos ou parceiros tenham que usar uma grande dose de energia para trazê-los de volta ao mundo real.

Quem quiser fazer o teste, segue o link abaixo. Fiz há alguns anos atrás e hoje fui reler – segue encaixando como uma luva.

https://www.16personalities.com/br/teste-de-personalidade

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Diário 16

“Eu quero uma licença de dormir,
perdão pra descansar horas a fio,
sem ao menos sonhar
a leve palha de um pequeno sonho.
Quero o que antes da vida
foi o sono profundo das espécies,
a graça de um estado.
Semente.
Muito mais que raiz”

Poema Exausto, de Adélia Prado, exprime o estado de espírito deste sábado. O cansaço acumulado bateu de uma forma insana. Ainda tem o enguiço chamado menstruação misturado com o feitiço impaciência perante banais coisas diárias (que não vão mudar) e BUM!. A receita perfeita para exaurir a sujeita. Ainda tive que ir na roça duas vezes no mesmo dia, uma delas à noite. Desgosto muito de direção noturna.

Voltando ao poema da maior poeta deste país. A graça do estado semente, a real possibilidade de brotação. Só possibilidade? Não… a certeza da brotação. Só depende de mim e já compreendi isso. Estou no caminho, a atenção já está voltada para a direção adequada. Agora é “só” manter o foco dessa atenção e seguir cultivando Deus no mais íntimo do meu coração. Vou nessa toada.

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Diário 15

O urutau-ferrugem é a coisa mais fofa do mundo e olha que não sou de dar muita moral para pássaros. Por sinal, Urutau também é uma editora com chamada aberta para vários estados. Leitores (e potenciais) escritores, fiquem de olho. Voltei a acreditar na remota possibilidade de ser contemplada por algum concurso. Não sei de onde tiro tamanha audácia ou inocência de novo, mas lá vamos nós. Estilo Inês Brasil tentando entrar no BBB: “olá, estou aqui pela vigésima terceira vez!”.

Qual a dificuldade que os “incentivadores” da literatura tem na elaboração de editais? São regras esdrúxulas, envelopes dentro de envelopes, numa verdadeira operação matroska, só que sem nenhum traço de beleza da boneca russa. É que os editais são confusos, principalmente os que exigem pseudônimos. Ou quem sabe eu seja tapada mesmo, e não consiga nem passar da fase de admissão dos documentos (pois sim, ao invés de um simples e-mail, ainda nos fazem enviar originais!).

Sinto que devo fazer um post scriptum do último diário. Ficou uma coisa como uma investida em relação às redes sociais e não é bem assim que a banda toca. Especialmente na pandemia, lives de todo o tipo foram a salvação da pátria para um mundo em recolhimento involuntário. Particularmente, usufrui de vários cursos da Casa do Saber, todos gratuitos. Um verdadeiro manancial de sapiências verteu daquele mar para este rio aqui, especialmente os cursos dos saudosos Contardo Calligaris e Welson Barbato. Thiago Pugliesi salvou a saúde do corpo com vários treinos ao vivo, e a lista de gente usando as redes sociais para o bem não é pequena. Acontece que depois de ver o “O dilema das redes” e coisas similares, a gente cansa de patrocinar Zuckebergs da vida. Sejamos mecenas – apesar de faltar o elemento principal, opulência – de pessoas mais merecedoras.

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Diário 14

Um ser humano não tem nada além da saúde. Nada, nadica, nonada mesmo. Perdeu a saúde física, deixou de ter propriedades consideradas úteis? Não tem mais higiene mental para lidar com demandas mil? Adeus, bye, bye. Quando você me quiser, não estarei no Ilê e nem te quero mais.

Estamos vivos sempre por um milagre, um triz que escapa às linguagens e, consequentemente, ao conhecimento transmissível. O corpo? Uma precariedade ambulante, terreno fértil para mil e um padecimentos, uma engenhoca sustentada apenas pela graça divina. 

Não suporto mais ouvir que a vida é um sopro (e só quando alguém morre). A existência é às vezes um sussurro, um grito, um vendaval ou uma circunspecta sinfonia. É tudo isso de uma vez. É angústia e felicidade, medo e possibilidade. Só precisamos chegar a um ponto em que teremos deixado as antinomias de lado. Os opostos não se atraem, antes se sustentam por serem um só. A sociedade está viciada em rixas e comparações. Essa doença é moral, e das mais vis possíveis.

Só se encontra algo similar a “um sentido” – como se sentido não fosse, por natureza, algo múltiplo –  cultivando os jardins suspensos da Babilônia que florescem dentro de nós mesmos. A correria capitalista não nos deixa muito tempo para auto reflexão. Precisamos forjar esse espaço a qualquer custo, e olha que ele é bem alto. Nada menos do que nossa força de trabalho, juventude e ímpeto estão em questão.

Sempre me pergunto qual foi o tamanho do estrago que as redes sociais impuseram à minha psique ao longo dos anos. Do MSN ao Orkut, do Facebook ao Instagram. Nem sei por qual motivo escrevo esses nomes com letra maiúscula. Já é algo inconsciente. São instituições que ocuparam milhares de horas da minha vida, e eu permiti que assim fosse. É tempo demais investido em aparências, opiniões sem fundamento, likes e afins. Ainda sou sem vergonha, navego pelo twitter. Essa dopamina (re)compensatória e viciante ainda me erra de vez? Aqui no WordPress a dinâmica é diferente… acho que vou seguir uns tempos por aqui. 

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Diário 13

A énclise cria dois vocábulos. O dígrafo pressupõe a exclusão do encontro consonantal. Ditongo crescente sempre pode ser considerado hiato. O fato da palavra hiato ser um hiato talvez seja a coisa mais poética que encontrei na espevitada língua portuguesa. Língua de Pessoa, mas também de Mateus Aleluia, que vai estar em Mucugê em breve. Preciso ter tempo para ir às feiras literárias. Cansei de todas minhas desculpas esfarrapadas (e das lógicas também).

Amarelo. Amar/elo. É tudo pra ontem. Não há mais tempo para jogar pela janela. Nunca houve. Ando tomada por tantas tarefas, mas poucas valem a pena. Amanhã será um dia decisivo para remediar tudo isso. Passei já tarde para dar entrada aqui, a clássica neurótica que não quer perder o fio da meada.

Espiei o Reddit:

[É assim que minha mente funciona. Toda hora abre uma aba e preciso procurar a origem das coisas SOS]

Qual a origem da expressão “perdeu o fio da meada”?

A expressão “fio da meada” surgiu na revolução industrial quando começou a serem usadas máquinas para fazer tecidos com a manipulação da mão humana. Essas máquinas tinham um suporte para o rolo de fios (meada). A responsabilidade do operário era a de pegar a ponta do fio (o fio da meada) e colocar na posição que a máquina começava a puxar o rolo e fabricar o tecido. Tal função exigia concentração porque o orifício que a maquina usava para puxar o fio era bastante pequeno. Acontece que os rolos passavam um a um a uma velocidade considerável e às vezes o operário perdia o “fio da meada” por falta de concentração, cansaço (devido às exaustivas jornadas de trabalho) ou por ficar fazendo mexericos da vida alheia com seus companheiros de trabalho.Tanto que os dicionários associam a palavra “meada” tanto a “fios” quanto a “mexericos”.

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Diário 12

Zínias são cultivadas no espaço sideral. O ornitorrinco vegetal vive por mais de dois mil anos. Do-is mil!! As équidnas são, ao mesmo tempo, répteis, aves e mamíferos. Preciso sistematizar esses dados Discovery Chanel num poema estilo Guilherme Gontijo Flores. A mimese é uma grande ode. Somos como uma rede de inspirações e aspirações.

Estou com o dedão do pé machucado. Um pequeno detalhe é capaz de alterar todo proceder do ser humano. É um tal de pé para cima para lá, não andar para cá. Qualquer leve discrepância – de alteração de temperatura à constipação – é suficiente para nos tirar da zona de conforto. Para lembrar que temos um coração, basta que ele doa.

Meditei mais cedo e agora vou orar. Inverti a ordem normal dos fatores, mas não se alterará o resultado. Assisti aos minutos finais do jogo do Flamengo, ontem. Vitinho se arrasta em campo e ainda faz marra. Livre-se desse encosto, Braz.

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Diário 11

Estava no primeiro terço da leitura de “Revolução das plantas”, de Mancuso, quando me deparei com o milagre do esforço da erodium cicutarium pela sobrevivência. Essa planta prima carnal da gardênia literalmente fura o solo até conseguir se fixar no terreno. Precisei parar para pesquisar no youtchube (Dunker <3) se havia algum vídeo desse esforço hercúleo. Encontrei e não é nada menos do que absolutamente estarrecedor!

https://www.youtube.com/watch?v=578lKODmavM

Quase todo mundo associa as plantas à imobilidade, à estática. Desconheço algum ser mais lutador e dinâmico do que erodium cicutarium. Quisera eu ter metade desse nível de empenho. Lembrei de uma frase de Guimarães Rosa que há muito tempo tenho de cor, por algum motivo: “Quando nada acontece, há um milagre que não estamos vendo”. Preciso parar, de novo, e procurar de onde exatamente vem essa frase. É do conto “O espelho”, que vou ler agora.

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Diário 10

 “Não, a escrita não é uma maneira de conseguir viver, é simplesmente uma maneira de viver. Nem todos podem escrever ou fazer literatura, essa vida não é para todo o mundo. Alguns morrem por ela. Mais do que uma maneira de viver, a literatura é uma maneira de morrer, de morrer para si mesmo”.  Marguerite Duras escreve, sendo mais do que precisa.

Ser uma escritora que lentamente morre para si mesma me parece das coisas mais cristãs que já ouvi (ou li, no caso), muito embora nunca tenha encontrado nenhuma referência de religiosidade em Duras. Marguerite implica a angústia existencial do escritor à própria morte, na medida em que ambas são experiências pessoais e intransferíveis.

Em Lucas 9:23, lê-se que Jesus dizia a todos: se alguém quiser acompanhar-me, negue-se a si mesmo, tome diariamente a sua cruz e siga-me. A doutrina cristã não é de salvação, mas de sacrifício. A imolação do ego é necessária e indispensável. A recusa de si próprio nada mais é do que o acolhimento da morte como norte.

Assim como o cristão, o escritor também precisa acolher a renúncia total e se portar com toda humildade do mundo. Nós, seres humanos, não somos nada demais. Aliás, mais atrapalhamos o equilíbrio do planeta do que tudo. Destruímos espécies, escravizamos semelhantes e por aí vai. Articula Isaías, 64:6: Mas todos nós somos como o imundo, e todas as nossas justiças como trapo de imundícia; e todos nós murchamos como a folha, e as nossas iniquidades como um vento nos arrebatam“.

Sextou!

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Diário 9

Ainda acerca de grilhões: “perguntar quem sou é uma pergunta de escravo, perguntar quem me chama é uma pergunta de homem livre”. Llansol. Pequenino excerto que pode ser escavado de muitas maneiras diferentes. Estou interessada nessa literatura que incomoda, sem nenhum romantismo. Diria Kafka: “Apenas deveríamos ler os livros que nos picam e que nos mordem. Se o livro que lemos não nos desperta como um murro no crânio, para que lê-lo?”.

Estou numa vibe de citações hoje. “Não liberte o camelo do peso da sua corcova; talvez você o esteja fazendo deixar de ser camelo”. Mais um pequeno pedaço de diamante, dessa vez lapidado por Chesterton. Para refletir por dias e dias também.

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Diário 8

Escutar sempre o Roberto Mallet. Ele é um cara que realmente tem o que dizer. A aula dele “Qual a vontade de Deus para você?” é um show. Só ignorar o título piegas e apertar o play.

Passei a noite em claro. Os tempos tem sido especialmente puxados. Vou orar agora antes de dormir, contrição total.

Comecei a escutar o podcast “A mulher da casa abandonada”. O Brasil realmente não tem jeito. Darcy Ribeiro errou, Pindorama já passou do prazo de validade. É aquele meme “já nasceu morta”. Terrae brasilis só serve para isso: fabricar memes.

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Diário 6

Uma grandiosa alma chamada Martha Argerich, sinceramente a maior pianista viva do mundo. Ela supera a tecnicidade estéril da perfeição e atinge a gente em cheio, numa explosão de emoção difícil de explicar. É preciso sentir.

Adoro pesquisar a biografia das pessoas que admiro. Martha começou a tocar com três anos de idade, repito: três!! E tocou de ouvido as primeiras vezes. Deu o primeiro recital completo aos oito. Ela já passou dos oitenta, e apesar de caracteristicamente reclusa, toca com uma agilidade absurda até hoje. A Argentina se orgulha imensamente de ser a terra natal de uma virtuose desse nível. Por sinal, os hermanos são ótimos em dar valor aos seus nacionais.

Enorme pianista e amigo pessoal de Martha? O brasileiro Nelson Freire, uma das poucas pessoas que conseguiam tirá-la da toca para uma apresentação ao vivo. Nelson morreu há pouco tempo, discretamente reconhecido, que dirá aclamado. Naturalmente a música clássica não tem muita ressonância no Brasil. É considerada pretensiosa, elitista, incompreensível e até dispensável. Pois Nelson era humilde, gentil e completamente desinteressado em fama. Um artista por natureza.

Curioso como os psicopatas dos filmes hollywoodianos se amarram numa ária. Qualquer desequilibrado, em geral, gosta de ópera. As pessoas se alienam definitivamente da possibilidade de ouvir Villa-Lobos ou Carlos Gomes nessa brincadeira. Não advogo que a música erudita seja superior a nenhuma outra, muito pelo contrário. Mas a recusa de muitos em dar uma chance ao gênero me dá nos nervos.

O inverso também vale. Os poucos gatos pingados que gostam de música clássica não dão a menor chance ao rap, por exemplo. Consideram os sons e gostos como sendo imiscíveis. A questão é que toda expressão artística tem seu valor. Poucos poetas são capazes de fazer rimas tão boas quanto as de Rincon Sapiência ou Emicida. Todo mundo precisa descer um pouco do pedestal e se dar a chance de conhecer de tudo um pouco. Sem restrições.

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Diário 5

E fui na festa ontem. Dancei a noite inteira, como de costume. Só meus amigos mais próximos conhecem essa minha faceta que não para… até eu mesma me assusto com o tanto que danço e danço. Hoje amanheci praticamente sem pés. Ainda bem que é domingo, vou ficar de molho.

Vi um total de três games da final de Wimbledon mais cedo. Dois jogadores absolutamente insuportáveis, difícil até de assistir. Vou deixá-los inominados, inclusive. Para piorar, Jabeur perdeu a final feminina. Só a vitória da Krejcikova nas duplas deu uma amenizada no caos que foi o torneio.

As temperaturas estão cada dia mais baixas. Esse é o primeiro inverno no qual me sinto muito à vontade nesse clima. Impressionante como quase todas as identificações que fazemos podem ser revistas. Eu detestava frio, água com gás, musculação e Tarkovsky há alguns anos atrás. Hoje, agradeço por eles.

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Diário 4

Nem preciso colocar o nome da cidade (se eu mudar de localidade, aviso) e a data o próprio post já indica. Ontem finalizei dois poemas e mostrei para Simone. Ela gostou, disse que mudei mesmo de direção e que agora está visível o quanto melhorei no ofício. Impressionante como a opinião dela é a única que importa. Não por ela ser livreira, mas por realmente fazer críticas contundentes. Se ela diz que gosta, gosta mesmo.

Todos meus poemas agora – já faz um bom tempo, na real – são feitos em caderninhos, com a letra horrível de sempre. Tenho que passar muitos ainda para o computador, para não me perder na organização. Nessa transição do cursivo para o bit, muitas coisas acontecem. É como se fosse uma peneirada de farinha de trigo. Tem sido o melhor método de dilapidação possível.

Andei lendo e ouvindo Anthony de Mello, simplesmente a genialidade em forma de gente. Ele sintetizou proteínas novas na minha cabeça que vão reverberando até hoje. Mas, a maior influência do ano realmente é Maria Gabriela Llansol. É preciso ler cada frase com uma atenção específica, praticamente numa investigação de criptologia.

O trecho de MGab que colacionei aqui acabou gerando um dos poemas aos quais me referi. Me pergunto se Llansol meditava no sentido mais clássico da palavra, ou se já nasceu assim mesmo, iluminada. Ela é um dos meus maiores motivos para manter um diário. Carolina Maria de Jesus também me causou uma forte impressão recentemente. Não sei como demorei tanto tempo para lê-la.

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Diário 3

Pensei em seguir com os diários sem publicá-los na rede mundial de computadores. Pensei em me picar para um retiro espiritual definitivo, pois nada mais puro do que uma vida monástica. Pensei na possibilidade de lavar o cabelo agora, mas para quê, se de noite vou malhar e sujá-lo de novo…

Almocei feito um leão, sem nenhum exagero. Aproveitar que ainda tenho os dentes e o apetite, e que a convalescença exige um certo torpor alimentício. Por falar em comida, fiz uma fornada de chimango que resultou um luxo. Inchou consideravelmente, ficou com aquele ar roceiro que só os melhores biscoitos tem.

Amanhã tem o São Pedro. Arrumei mil motivos mentais para não ir, mas vou enfrentar a resistência. Acho que caminho para a aposentadoria voluntária de festas. Comparecer a uma ou outra ainda, mas o interesse está em queda livre. O volume do som é absolutamente desproporcional ao que um ser humano coerente deveria ser exposto – mesmo que esteja com cachaça no juízo.

Me sinto velha, como se tivesse vivido umas três vidas. Já nasci jurásica, experimentada, de olhos abertos e me recusando a chorar com as palmadas que dão as boas-vindas à vida. Como é abençoada nossa constituição, pois imagino que caos seria lembrar dos primeiros meses de nossa existência.

Assisti um episódio esporádico de “Chef’s table” ontem. Não sei como essa série não caiu no gosto popular, mas ao mesmo tempo fico feliz de tê-la “só para mim”. As coisas que viram modinha demais me dão preguiça. Assisti também ao que parece ser o último episódio de “Sob Pressão”. Marjorie Estiano é a sucessora natural de Fernanda Montenegro. Sem condições o nível de talento.

Preciso sair para resolver algumas coisas. Vou no ímpeto, sem muito vacilar.

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Diário 2

Vivendo ou apenas me alimentando de podcasts? Andrew Huberman, Tim Ferriss, Mano Brown, conteúdos realmente impressionantes, de a a z. As indicações, ramificações e aprendizagens decorrentes dessas escutas são preciosas.

Tentando retomar, pela enésima vez, o hábito da meditação diária. O desafio é ficar 90 dias seguidos na prática, sem falhar. Escrevendo aqui fica mais fácil me cobrar – cat is out of the bag. Em compensação, rezo o terço todos os dias. Ter me tornado mariana foi realmente uma virada de chave difícil de descrever.

Deixei de frequentar as sessões de psicanálise há alguns meses, mas praticamente toda semana penso em retomar (talvez não com a mesma pessoa; ao mesmo tempo, escolher alguém se demonstra complicado). Ter procurado essa abordagem me fez mais do que bem. Remexer em vespeiro não é tarefa das mais simples, mas se o processo terapêutico não for difícil, algo está errado: feito matemática.

Sinto a força da inércia pesar no corpo de maneira quase patológica. São dias e mais dias de repouso forçado, e agora não sei se quero voltar para a rotina de correria e mais valia. Quem engole essa lógica sem água nem farinha, a seco e na marra? Acho que ninguém de bem.

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Diário – 1

Vitória da Conquista, 06 de julho de 2022.

Eis-me aqui: nono dia de isolamento decorrente da COVID. O ser humano se adapta a tudo, inclusive a ficar “preso” dentro de casa, como bem descobrimos após o advento da pandemia. Este tempo de reclusão tem sido bem menos opressivo do que eu esperava, talvez por ser a segunda vez que contraio essa doença, talvez pelo fato de que, para me tirar do sério, só mesmo uma calamidade.

O noturno op. 37 nº1 em sol menor de Chopin melhora o tom do dia enevoado de hoje. Em São Paulo, meu pai segue internado por complicações do câncer. A sociedade utilitarista não perdoa os doentes, a ordem é eternamente produzir. Falando nisso, preciso dar conta de terminar um ensaio poético ainda hoje. É que é difícil escreviver na rota planetária de Maria Gabriela Llansol. Ela não é daqui da Terra, quiçá nem da via láctea.

Tenho me sentido uma criptologista lendo Blanchot e Llansol ao mesmo tempo. Ousei flertar com Spinoza, mas ainda não deu namoro. Melhor seria aprender francês para melhor decifrar todo mundo, notadamente Blanchot. Me surpreendi com os argumentos dele acerca da impessoalidade em Mallarmé. Rimbaud era um gênio, para não falar em Verlaine. No original, poderia o mistério de cada um deles ser desvendado? Ahimè!

Ontem fiz lasanha. Fazia alguns meses que não cozinhava nada de vulto (fritar ovo e fazer beiju não pode contar). Surpreendentemente, minha mãe comeu e repetiu, logo ela que dá trabalho para ingerir mais de 100 gramas de qualquer coisa, e ainda por cima tem intolerância à lactose. Acho que a troca do queijo mozzarella pelo primavera foi fundamental para aprovação. A reverberação da Covid nela está um pouco pior do que em mim. Mas diria José de Alencar, “tudo passa sobre a terra”.

Se evito adentrar no assunto do câncer? Definitivamente sim. Essa tem sido minha realidade há muitos e muitos dias. Prefiro dar voz a outros mundos.

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Diário

Vitória da Conquista, 05 de julho de 2022.

Tenho feito meditações sobre Pressfield com Lúcia Helena Galvão acerca das mais arraigadas resistências. Os melhores livros não são corriqueiramente recomendados. Estou dissolvendo “A guerra da arte” como um sublingual, numa estranha parcimônia – talvez por saber que quanto mais tenho sede, menos gotas o universo vem a oferecer.

A vida de um escritor nada mais é do que completa dedicação, sendo sua inspiração chamada de disciplina. Não há desvios para uma vida dedicada às musas. Estou comprometida com rituais e mudanças, conforme o início deste diário.

O desespero é a árvore da imaginação sendo definitivamente derrubada. A motosserra é a resistência. Não posso mais me dar a esse luxo, nem alegar ignorância. Ser Trinity num mar de Cyphers, não me abalar por críticas ou elogios. Esse é o chamado, me resta acatar.

A verdadeira sabedoria poderia ser algo como ter convicção sobre a incerteza, e nem por isso deixar de crer em lapsos da impermanência. De fé também se vive – clinâmen.

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Mr. Nobody

Simplesmente o melhor filme que vejo em muitos anos. E completamente despretensioso, sem nenhum hype. Fiquei sabendo da existência dele através do melhor podcast do mundo, “Efefantes na Neblina”.

Filosofia apurada, reflexões verdadeiramente inspiradoras. Jared Leto numa atuação memorável, mas roteiro e direção são os espetáculos à parte. O significado de escolher, o efeito paralisante da consequente renúncia, as diferentes timelines com as quais todos nós sonhamos… Mr. Nobody é impecável.

Assistam e assitam. Sério.

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Curto-circuito:

Lugar comum

__________________

Onde eu era

Vocês são

__________________

Fade in

__________________

Eles contam, da diz-mensão,

Estórias para boi acordar

__________________

Por um lapso,

Arranhar a exegese do erro perpétuo

__________________

Burn out

__________________

Esse inconsciente sofista

Não cessa de tergiversar

___________________

Vitória da Conquista, 09 de novembro de 2021.

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cinema, crítica

Onde fica a casa do meu amigo?

Raramente se vê no cinema um retrato fiel do que é a infância. A opressão que a criança comumente sente emanar dos adultos é palpável neste filme de 1987, do gênio iraniano Abbas Kiarostami. Tudo começa quanto o protagonista Ahmad pega o caderno do colega Mohamed por engano, durante a aula de um professor particularmente aterrorizante. O filme todo gira em torno da tentativa de Ahmad de encontrar a casa do colega para devolver o caderno.

A premissa é bem simples, mas não tem nada de comum. Poucos cineastas conseguem captar tão bem a poesia das coisas corriqueiras. Não por acaso Abbas Kiarostami também é poeta e faz um filme extremamente tocante. Um erro tão banal quanto levar para casa o caderno errado desencadeia uma série de acontecimentos angustiantes na vida de Ahmed, um menino de oito anos com alma de oitenta.

O dilema ético de Ahmad é tremendo, eis que ele precisa driblar sua família absolutamente alheia ao seu desejo de destrocar o caderno com o colega. Desobediência no Irã é algo fora de questão e quando a mãe de Ahmad o proíbe de devolver o caderno, ele se debate sobre o que fazer até se decidir por desobedece-la por puro desespero. Ora, se o colega aparecer sem o caderno com o dever de casa pronto para o dia seguinte, o professor ardiloso vai destroçar Mohamed! Mesmo não sendo especificamente próximo do colega, Ahmed arrisca tudo para procurar a casa dele e devolver o caderno. Ele se lança numa saga insana, se arrisca por ruas desconhecidas, se descabela de tanto correr atrás de pistas precárias sobre o paradeiro de Mohamed.

Esse é um filme que não se encaixa num gênero específico. É uma investigação da alma de uma criança, da rígida sociedade que a cerca e pressiona sem cessar. Abbas tem uma incrível leveza na condução da direção. O tempo todo o filme é muito duro, mas acaba por oferecer um final esperançoso e inesperado. A história de Ahmed é tão difícil quanto bela, exatamente como a vida… filmaço!

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autoral, poema

“Aú

Fito a vermelhidão indescritível

que se esparrama pelo horizonte.

A esfera se impõe solene, 

flertando com uma sombra quase alienígena.

Espanto coletivo: mal culmina a rubra redoma,

e já se vai esvaindo, mais que etérea majestade.

Enquanto isso,

segue a lua rumo ao pino.

No átimo em que menos atino,

sinto um uivo brotar de minha entranha.

Ana Luz.

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Stela do Patrocínio

O nome do monumento é Stela do Patrocínio, nascida no ano da graça de 1941. Abandonada pela família por conta da sina da loucura, Stela viveu por mais de trinta anos internada no Hospital Psiquiátrico Juliano Moreira, no Rio.

O discurso corriqueiro de Stela era extremamente poético. Mesmo por isso, todos seus poemas são falas registradas/gravadas e posteriormente transcritas. Colaciono abaixo um trecho da arte dessa mulher incrível – recomendo fortemente que procurem saber mais sobre Stela.

Stela é um ato de presença na ausência, uma rajada de sanidade num mundo insanamente opressor. Ora, não interessa a razão no poema. O que conta é a palavra e como ela se inscreve e reverbera no corpo. Stela é essa reverberação funda, o uivo de uma loba primordial que ecoará para sempre pelos ares. Basta saber ouvir.

“Não sou eu que gosto de nascer

Eles é que me botam para nascer todo dia

E sempre que eu morro me ressuscitam

Me encarnam me desencarnam me reencarnam

Me formam em menos de um segundo

Se eu sumir desaparecer eles me procuram onde eu estiver

Pra estar olhando pro gás pras paredes pro teto

Ou pra cabeça deles e pro corpo deles”.

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José Lezama Lima (1910 – 1976)

Inspiração da semana.

Chamado do Desejoso

Desejoso é aquele que foge de sua mãe.
Despedir-se é lavrar um orvalho para uni-lo à secularidade da saliva.
A profundidade do desejo não está no seqüestro do fruto.
Desejoso é deixar de ver sua mãe.
É a ausência do acontecido de um dia que se prolonga
e é na noite que essa ausência vai afundando como um punhal.
Nessa ausência se abre uma torre, nessa torre dança um fogo oco.
E assim se alastra e a ausência da mãe é um mar em calma.
Mas o fugidio não vê o punhal que lhe pergunta,
é da mãe, dos postigos fechados, que ele foge.
O descendido em sangue antigo soa vazio.
O sangue é frio quando desce e quando se espalha circulizado.
A mãe é fria e está perfeita.
Se for por morte seu peso dobra e não mais nos solta.
Não é pelas portas onde assoma nosso abandono.
É por um claro onde a mãe ainda anda, mas já não os segue.
É por um claro, ali se cega e logo nos deixa.
Ai do que não anda esse andar onde a mãe não o segue mais, ai.
Não é desconhecer-se, o conhecer-se segue furioso como em seus dias,
mas segui-lo seria o incêndio de dois numa só árvore,
e ela adora olhar a árvore como uma pedra,
como uma pedra com a inscrição de antigos jogos.
Nosso desejo não é pegar ou incorporar um fruto ácido.
O desejo é o fugidio
e das cabeçadas com nossas mães cai o planeta centro de mesa
e de onde fugimos, se não é de nossas mães que fugimos,
que nunca querem recomeçar o mesmo jogo, a mesma
noite de igual ilharga descomunal?

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Inspiração poética da semana

LXII

Que as barcaças do Tempo me devolvam
A primitiva urna de palavras.
Que me devolvam a ti e o teu rosto
Como desde sempre o conheci: pungente
Mas cintilando de vida, renovado
Como se o sol e o rosto caminhassem
Porque vinha de um a luz do outro.

Que me devolvam a noite, o espaço
De me sentir tão vasta e pertencida
Como se as águas e madeiras de todas as barcaças
Se fizessem matéria rediviva, adolescência e mito.

Que eu te devolva a fome do meu primeiro grito.

Hilda Hilst em Amavisse (1989)

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Francisca Júlia

Um monumento de poeta que descobri há pouco. Ignorada pela crítica, virtualmente esquecida pelo tempo. Um salve a esse hino de mulher. O poema se chama Dança das Centauras:

“Patas dianteiras no ar, bocas livres dos freios,

Nuas, em grita, em ludo, entrecruzando as lanças,

Ei-las, garbosas vêm, na evolução das danças

Rudes, pompeando à luz a brancura dos seios.

A noite escuta, fulge o luar, gemem as franças;

Mil centauras a rir, em lutas e torneios,

Galopam livres, vão e vêm, os peitos cheios

De ar, o cabelo solto ao léu das auras mansas.

Empalidece o luar, a noite cai, madruga…

A dança hípica pára e logo atroa o espaço

O galope infernal das centauras em fuga:

É que, longe, ao clarão do luar que empalidece,

Enorme, aceso o olhar, bravo, do heróico braço

Pendente a clava argiva, Hércules aparece”

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livro, poema

Nasceu a criança

Fruto de um pulo de cabeça na vivência da Psicanálise – no divã, como analisanda, na pós, como estudante – eis meu primeiro livro solo de poemas. Um sonho realizado! Convido todos a adquirir “Poeta em pânico” no link abaixo:

https://www.editoraletramento.com.br/produto/poeta-em-panico-454

Críticas, sugestões, elogios… ávida por tudo!

Ana.

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Todo mundo deveria ler este poema

E tenho dito.

A condição poética

um poema de Czeslaw Milosz
traduzido por Ana Cristina César e Grazyna Drabik

Como se tivesse em vez de olhos binóculos ao contrário, o mundo
se distancia e pessoas, árvores, ruas, tudo diminui, mas nada,
nada perde a clareza, fica mais denso.

Já tive antes momentos assim, escrevendo poemas; conheço então
a distância, a contemplação desinteressada, sei assumir
um eu que é não-eu, mas agora é sempre assim e me pergunto
o que significa isso, se entrei numa permanente condição poética.

As coisas difíceis antes, agora são fáceis, mas não sinto desejo
forte de transmiti-las por escrito.

Só agora estou sadio, e era doente, porque o meu tempo
galopava e afligia-me o medo do que viria.

A cada momento o espetáculo do mundo é para mim de novo
surpreendente e tão cômico que não entendo como a literatura
podia querer dominá-lo.

Sentindo fisicamente, ao alcance da mão, cada momento, amanso
o sofrimento e não suplico a Deus que queira afastá-lo de mim:
por que o afastaria de mim se não o afasta dos outros?

Sonhei que me encontrava numa estreita borda sobre o oceano
onde se viam nadando enormes peixes marítimos.
Tive medo que, se olhasse, cairia. Virei então,
agarrei-me nas asperezas da parede rochosa,
e movendo-me lentamente, de costas para o mar, cheguei
a um lugar seguro.

Eu era impaciente e irritava-me a perda de tempo com coisas triviais
incluindo entre elas a faxina e a preparação da comida. Agora
corto com cuidado a cebola, espremo os limões, preparo
vários tipos de molho.

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Anotação I

emoção é movimento que se desagrega,

uma reação catastrófica

a efusão é um momento denso = perturbação,

comoção que desmorona

a angústia não é emoção, é afeto –

já o pensamento é secreção que mobiliza o corpo.

Ana Luz (aquela que não sabe porquê às vezes assina, às vezes não).

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Inspiração poética semanal

Minas Gerais produz os melhores poetas e posso provar:

Confronto

Henriqueta Lisboa |     

Em relâmpago os bárbaros
no espaço.
Passo a passo os tímidos
no tempo.

Sob os pés dos vândalos
as pedras arrasam-se.
Do chão limpo os pacíficos
erguem torres bíblicas.

Os rebeldes, de árbitros,
destroem os ídolos.
Os dóceis, na dúvida,
valorizam as órbitas.

A fibra dos bárbaros,
a astúcia dos tímidos.

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Bastão de Molière

Acordos tácitos precedem o espetáculo:

nada de comida nem conversa paralela.

Ressoa um oboé anasalado,

muito bem afinado num lá insistente.

Violinos rasgam o ar levemente rarefeito.

Acordes ansiosos pelo principiar

iluminam ácaros e gotículas.

O tom geral é de expectativa,

sujeita cortante como um tapa

de vilã da Televisa.

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