cinema, crítica

Onde fica a casa do meu amigo?

Raramente se vê no cinema um retrato fiel do que é a infância. A opressão que a criança comumente sente emanar dos adultos é palpável neste filme de 1987, do gênio iraniano Abbas Kiarostami. Tudo começa quanto o protagonista Ahmad pega o caderno do colega Mohamed por engano, durante a aula de um professor particularmente aterrorizante. O filme todo gira em torno da tentativa de Ahmad de encontrar a casa do colega para devolver o caderno.

A premissa é bem simples, mas não tem nada de comum. Poucos cineastas conseguem captar tão bem a poesia das coisas corriqueiras. Não por acaso Abbas Kiarostami também é poeta e faz um filme extremamente tocante. Um erro tão banal quanto levar para casa o caderno errado desencadeia uma série de acontecimentos angustiantes na vida de Ahmed, um menino de oito anos com alma de oitenta.

O dilema ético de Ahmad é tremendo, eis que ele precisa driblar sua família absolutamente alheia ao seu desejo de destrocar o caderno com o colega. Desobediência no Irã é algo fora de questão e quando a mãe de Ahmad o proíbe de devolver o caderno, ele se debate sobre o que fazer até se decidir por desobedece-la por puro desespero. Ora, se o colega aparecer sem o caderno com o dever de casa pronto para o dia seguinte, o professor ardiloso vai destroçar Mohamed! Mesmo não sendo especificamente próximo do colega, Ahmed arrisca tudo para procurar a casa dele e devolver o caderno. Ele se lança numa saga insana, se arrisca por ruas desconhecidas, se descabela de tanto correr atrás de pistas precárias sobre o paradeiro de Mohamed.

Esse é um filme que não se encaixa num gênero específico. É uma investigação da alma de uma criança, da rígida sociedade que a cerca e pressiona sem cessar. Abbas tem uma incrível leveza na condução da direção. O tempo todo o filme é muito duro, mas acaba por oferecer um final esperançoso e inesperado. A história de Ahmed é tão difícil quanto bela, exatamente como a vida… filmaço!

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autoral, poema

“Aú

Fito a vermelhidão indescritível

que se esparrama pelo horizonte.

A esfera se impõe solene, 

flertando com uma sombra quase alienígena.

Espanto coletivo: mal culmina a rubra redoma,

e já se vai esvaindo, mais que etérea majestade.

Enquanto isso,

segue a lua rumo ao pino.

No átimo em que menos atino,

sinto um uivo brotar de minha entranha.

Ana Luz.

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crítica

Precisamos falar sobre Fritz Lang

A genialidade desse homem é surreal. Fazia muito tempo que eu não sentava para assistir algo dele, e eis que hoje me deparo com “Um retrato de mulher”. Um noir impecável, de 1944, com uma atuação marcante de Edward G. Robinson (outro nome que não é tão aclamado, e nunca entenderei o motivo).

Sempre tento fazer a crítica dos filmes que vejo sem spoilers. Procuro soltar informações suficientes para gerar interesse, mas privilegiando o enigmático – estratégia questionável nesse mundo deveras imagético de hoje. Mas, vamos lá… seguirei nessa toada e vamos de esforço argumentativo.

Antes de mais nada, se Fritz Lang fosse americano, teria centenas de estátuas e prêmios com seu nome. A grande vertente de filmes de suspense com serial killers foi inaugurada pelo mestre austríaco, no absolutamente icônico “M”, de 1931. Sério, pare tudo que você está fazendo e vá ver “M”. Não tem essa de achar que cinema tem pressuposto de intelectualidade, pois não tem. A arte está aí para afetar: basta você se permitir ser afetado.

E o que dizer do estonteante “Metropolis” (1927), pioneiro absoluto do gênero de ficção científica? Possivelmente o filme mais famoso de Lang e também o mais admirado. Não por acaso, foi o primeiro filme do mestre ao qual assisti, ainda adolescente. O filme é uma perfeição de distopia aliada a efeitos especiais assombrosos para a época. Um clássico que demorou 17 meses para ser produzido, algo inimaginável naquela época… coisa que só nomes como James Cameron e Spielberg são capazes de bancar hoje em dia.

Vale notar que Thea Gabriele von Harbou foi responsável pelos roteiros de “Metropolis” e “M”, fato para lá de notável, eis que mulheres roteiristas eram – e ainda são – minoria absoluta na indústria do cinema. A parceria entre Thea e Fritz se tornou também romântica. Eles tiveram um affair, se casaram e logo se divorciaram. Mas nada poderia ter afetado a incrível produção artística desses dois.

Não bastasse toda sua faceta da mais alta vanguarda, Lang ainda soube se estabelecer em Hollywood com filmes mais comerciais. Filmou vinte e três películas especialmente centradas nas temáticas da guerra, da espionagem, e do gênero thriller, em geral. Vou destacar “Clash by night” simplesmente por seu meu sonho dourado: Fritz Lang e Barbara Stanwyck numa mesma produção! Sou tiete da Barbara e vou enaltecer sempre que tiver chance.

Me encontro absolutamente capturada pelo talento de Fritz Lang. Obsessiva de leve que sou, vou procurar mais coisas dele para ver. Procure você também! Mas, só para retomar ao filme “Um retrato de mulher”, que trama interessante. Qual não é a força imaginativa do desejo! O desfecho do filme, que poderia facilmente cair no clichê, se prova mais do que convincente. Como esperar menos de Fritz Lang?

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crítica, série

I may destroy you

Uma série que demorei de assistir e não imaginava que fosse tão boa: “I may destroy you”. Antes de mais nada, o que é o talento da Michaela Coel? A bicha escreveu, produziu, protagonizou e dirigiu uma das melhores coisas de 2020! Não é um feito pequeno. Ela faz tudo com uma maestria de encher os olhos. Se houvesse alguma justiça nas premiações mainstream, ela venceria todas. O texto, em especial, é impecável.

Retrato perfeito do mosaico inconstante e acelerado do século XXI, “I may destroy you” é sobre abuso sexual, drogas, feminilidade, amizade, amor… enfim, é sobre uma escritora britânica de modesto sucesso tentando escrever um livro que finalmente a eleve à condição de it girl. Mas os clichês param por aí. O enredo da série é absolutamente original. Não espere por final feliz, nem por vilões e mocinhos bem delineados. I may destroy you é confusa e caótica como a vida.

Michaela tem uma perspectiva rica e crítica que não se deixa levar pela sedução da cultura do cancelamento, pelo local de fala racial, feminista, binário. A grande sacada da série é fugir do maniqueísmo. Está em tela o comportamento humano que quase sempre se desvincula de moralismos e romantismos. A série quer chegar na raiz do canal, e por isso mesmo não terá como deixar de dar nos nervos. Ora, só atravessando a dor é que se chega a algum tipo de cura.

Cinco estrelas no anômentro.

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Stela do Patrocínio

O nome do monumento é Stela do Patrocínio, nascida no ano da graça de 1941. Abandonada pela família por conta da sina da loucura, Stela viveu por mais de trinta anos internada no Hospital Psiquiátrico Juliano Moreira, no Rio.

O discurso corriqueiro de Stela era extremamente poético. Mesmo por isso, todos seus poemas são falas registradas/gravadas e posteriormente transcritas. Colaciono abaixo um trecho da arte dessa mulher incrível – recomendo fortemente que procurem saber mais sobre Stela.

Stela é um ato de presença na ausência, uma rajada de sanidade num mundo insanamente opressor. Ora, não interessa a razão no poema. O que conta é a palavra e como ela se inscreve e reverbera no corpo. Stela é essa reverberação funda, o uivo de uma loba primordial que ecoará para sempre pelos ares. Basta saber ouvir.

“Não sou eu que gosto de nascer

Eles é que me botam para nascer todo dia

E sempre que eu morro me ressuscitam

Me encarnam me desencarnam me reencarnam

Me formam em menos de um segundo

Se eu sumir desaparecer eles me procuram onde eu estiver

Pra estar olhando pro gás pras paredes pro teto

Ou pra cabeça deles e pro corpo deles”.

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José Lezama Lima (1910 – 1976)

Inspiração da semana.

Chamado do Desejoso

Desejoso é aquele que foge de sua mãe.
Despedir-se é lavrar um orvalho para uni-lo à secularidade da saliva.
A profundidade do desejo não está no seqüestro do fruto.
Desejoso é deixar de ver sua mãe.
É a ausência do acontecido de um dia que se prolonga
e é na noite que essa ausência vai afundando como um punhal.
Nessa ausência se abre uma torre, nessa torre dança um fogo oco.
E assim se alastra e a ausência da mãe é um mar em calma.
Mas o fugidio não vê o punhal que lhe pergunta,
é da mãe, dos postigos fechados, que ele foge.
O descendido em sangue antigo soa vazio.
O sangue é frio quando desce e quando se espalha circulizado.
A mãe é fria e está perfeita.
Se for por morte seu peso dobra e não mais nos solta.
Não é pelas portas onde assoma nosso abandono.
É por um claro onde a mãe ainda anda, mas já não os segue.
É por um claro, ali se cega e logo nos deixa.
Ai do que não anda esse andar onde a mãe não o segue mais, ai.
Não é desconhecer-se, o conhecer-se segue furioso como em seus dias,
mas segui-lo seria o incêndio de dois numa só árvore,
e ela adora olhar a árvore como uma pedra,
como uma pedra com a inscrição de antigos jogos.
Nosso desejo não é pegar ou incorporar um fruto ácido.
O desejo é o fugidio
e das cabeçadas com nossas mães cai o planeta centro de mesa
e de onde fugimos, se não é de nossas mães que fugimos,
que nunca querem recomeçar o mesmo jogo, a mesma
noite de igual ilharga descomunal?

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Inspiração poética da semana

LXII

Que as barcaças do Tempo me devolvam
A primitiva urna de palavras.
Que me devolvam a ti e o teu rosto
Como desde sempre o conheci: pungente
Mas cintilando de vida, renovado
Como se o sol e o rosto caminhassem
Porque vinha de um a luz do outro.

Que me devolvam a noite, o espaço
De me sentir tão vasta e pertencida
Como se as águas e madeiras de todas as barcaças
Se fizessem matéria rediviva, adolescência e mito.

Que eu te devolva a fome do meu primeiro grito.

Hilda Hilst em Amavisse (1989)

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Francisca Júlia

Um monumento de poeta que descobri há pouco. Ignorada pela crítica, virtualmente esquecida pelo tempo. Um salve a esse hino de mulher. O poema se chama Dança das Centauras:

“Patas dianteiras no ar, bocas livres dos freios,

Nuas, em grita, em ludo, entrecruzando as lanças,

Ei-las, garbosas vêm, na evolução das danças

Rudes, pompeando à luz a brancura dos seios.

A noite escuta, fulge o luar, gemem as franças;

Mil centauras a rir, em lutas e torneios,

Galopam livres, vão e vêm, os peitos cheios

De ar, o cabelo solto ao léu das auras mansas.

Empalidece o luar, a noite cai, madruga…

A dança hípica pára e logo atroa o espaço

O galope infernal das centauras em fuga:

É que, longe, ao clarão do luar que empalidece,

Enorme, aceso o olhar, bravo, do heróico braço

Pendente a clava argiva, Hércules aparece”

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livro, poema

Nasceu a criança

Fruto de um pulo de cabeça na vivência da Psicanálise – no divã, como analisanda, na pós, como estudante – eis meu primeiro livro solo de poemas. Um sonho realizado! Convido todos a adquirir “Poeta em pânico” no link abaixo:

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Críticas, sugestões, elogios… ávida por tudo!

Ana.

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Todo mundo deveria ler este poema

E tenho dito.

A condição poética

um poema de Czeslaw Milosz
traduzido por Ana Cristina César e Grazyna Drabik

Como se tivesse em vez de olhos binóculos ao contrário, o mundo
se distancia e pessoas, árvores, ruas, tudo diminui, mas nada,
nada perde a clareza, fica mais denso.

Já tive antes momentos assim, escrevendo poemas; conheço então
a distância, a contemplação desinteressada, sei assumir
um eu que é não-eu, mas agora é sempre assim e me pergunto
o que significa isso, se entrei numa permanente condição poética.

As coisas difíceis antes, agora são fáceis, mas não sinto desejo
forte de transmiti-las por escrito.

Só agora estou sadio, e era doente, porque o meu tempo
galopava e afligia-me o medo do que viria.

A cada momento o espetáculo do mundo é para mim de novo
surpreendente e tão cômico que não entendo como a literatura
podia querer dominá-lo.

Sentindo fisicamente, ao alcance da mão, cada momento, amanso
o sofrimento e não suplico a Deus que queira afastá-lo de mim:
por que o afastaria de mim se não o afasta dos outros?

Sonhei que me encontrava numa estreita borda sobre o oceano
onde se viam nadando enormes peixes marítimos.
Tive medo que, se olhasse, cairia. Virei então,
agarrei-me nas asperezas da parede rochosa,
e movendo-me lentamente, de costas para o mar, cheguei
a um lugar seguro.

Eu era impaciente e irritava-me a perda de tempo com coisas triviais
incluindo entre elas a faxina e a preparação da comida. Agora
corto com cuidado a cebola, espremo os limões, preparo
vários tipos de molho.

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autoral

Ruminações

Aristóteles apregoava que a excelência só se é alcançável por meio da repetição. Eis aí uma enorme pedra no meio do caminho: se não nascemos com virtudes inatas e tudo pode ser cultivado, não há desculpas para fracassar.

Essa coisa de ter que encontrar a justa medida, de transitar perfeitamente entre vícios e virtudes é muito problemática. Sim, acredito que a insistência em boas práticas desenvolve o hábito. Mas, que hábito é esse que justifica a escravidão, por exemplo? Mesmo levando em consideração o anacronismo da questão, me arrisco.

O mesmo Aristóteles da justa medida também afirmava que, ao se distribuírem flautas, a prioridade do recebimento é dos melhores flautistas. Ora, não há repetição que baste quando um reles mortal precisa competir com um Altamiro Carrilho da vida.

O próprio Aristóteles não considera os homens como iguais por natureza. Não por acaso, ele era de família rica. Kelsen, em “O problema da justiça”, afirma que o filósofo grego só estava interessado na “manutenção da ordem social estabelecida”. Parece-me ser deveras o caso.

Para além da crítica à escravidão – mais tarde corroborada por São Tomás de Aquino e disseminada nos séculos seguintes – quero propor uma reflexão: seria o hábito, em si, uma virtude? A prática reiterada de uma mesma ação, mesmo que moralmente considerada correta, não significa tolher a possibilidade do desvio (clinâmen)?

Enfim, eis a provocação para a semana. Ah!, se pudéssemos fazer do desvio o hábito por excelência…

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autoral

Para ler e reler

Estou, no momento, lendo três livros, vendo um filme, ouvindo música, escrevendo aqui no blog, terminando um conto para um concurso, ajeitando a coluna torta. Esse post é um esforço mental e organizacional, quase uma entrada de diário.

Preciso fazer menos coisas ao mesmo tempo. Limitar o multitasking a, no máximo, duas tarefas. Tento fazer coisas demais, e acabo no velho dilema de não estar totalmente presente em nenhuma delas. Brecar, respirar, concentrar, ter calma. Há tempo para todas as coisas, Ana.

Tenho tido uma certa dificuldade para escrever. Como tudo na vida, parece que o segredo é não desistir. Forças, escritores por aí a fora. Eleger a criatividade como construção diária é uma delícia, por isso não podemos nos furtar das dores dos bloqueios. A maré só sobe porque também abaixa.

“Faça coisas. Seja curiosa, persistente. Não espere por um empurrão da inspiração ou por um beijo da sociedade na sua testa. Preste atenção. É tudo sobre prestar atenção. É tudo sobre captar o máximo que você puder do que está por aí e não deixar que desculpas e que a monotonia de algumas obrigações diminuam sua vida.” Susan Sontag disse tudo que eu queria dizer em pouquíssimas palavras. Aliás, que mulher.

Comprometo-me a reler esse post sempre que estiver às voltas com dificuldades para me concentrar, escrever, criar ou qualquer coisa do gênero.

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autoral, cinema

Maria – não esqueça que eu venho dos trópicos

Nos últimos anos, tenho me interessado exponencialmente por escultura. É um tipo de arte muito enigmática, que começou a me despertar um desejo de aprender a fazer algo com as próprias mãos.

Mas, tem gente que já nasce iluminada. É o caso de Maria Martins (mais uma adição para a galeria dos excepcionais artistas mineiros que admiro). O documentário Maria – não esqueça que eu venho dos trópicos, é mais uma pérola escondida na grande rede mundial de computadores. É como topar com um pedaço de uma memória recalcada, que haveria de emergir de algum modo.

A direção de Ícaro Martins é na medida exata. Apreciei cada escultura, pintura, desenho e gravura exibidos. Quase podia sentir a aura de Maria através da tela, numa rara experiência de apreciação artística. As esculturas são um caso à parte: transcendentalmente lindas, viscerais, chocantes.

A trilha sonora de Nelson Ayres e Ricardo Mosca ajuda muito na imersão da psiquê da artista. Cria-se um clima envolvente, sem apelar para violinos dramáticos ou estribilhos. É uma jornada de imersão, de compreensão de uma mulher cosmopolita, sensual, brilhante, mas também cheia de dores e mistérios.

Não sei como só descobri a existência dessa artista completa apenas em 2020. Sei, sim. Foi futucando a Mubi… mas, enfim. Como não se fala nesse monumento de mulher na escola, na mídia, em qualquer lugar? Respeitada em toda a Europa, embaixatriz do Brasil, organizadora da primeira Bienal de São Paulo, amiga pessoal de Picasso, amor da vida de Duchamps, dentre tantas outras coisas.

Minha alma feminina está plenamente nutrida para o ano. A obra de Maria Martins é simplesmente tudo de bom. Mil estrelas!

MARIA – Não Esqueça que Venho dos Trópicos
Documentário – Brasil – 81 minutos – 2017
Ficha técnica
Direção: Francisco C. Martins
Codireção e Produção: Elisa Gomes
Entrevistas: Malu Mader
Atores: Lucia Romano, Celso Frateschi
Produção Executiva: Elisa Gomes, Iside Mesquita
Direção de Fotografia e Câmera: Hugo Kovensky, ABC
Montagem: Idê Lacreta
Roteiro: Marta Góes, Idê Lacreta, Francisco C. Martins
Direção de Arte: Fernando Lion
Fotografia das Obras: Vicente de Mello
Trilha Sonora: Nelson Ayres, Ricardo Mosca
Coordenação de Pesquisa: Eloá Chouzal
Direção de Produção e Licenciamento: Ariene Ferreira
Supervisão de Som: Miriam Biderman, ABC
Desenho de Som: Ricardo Reis, ABC

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autoral, cinema

The midnight gospel

O problema filosófico que estrutura toda existência humana é justamente o da finitude. Os seres humanos fazem de tudo para desviar da natureza abrasiva da vida, mas a única coisa de que podem ter certeza? Ninguém pode escapar da morte.

Essa é a premissa da série “The midnight gospel”. A isso se adicionam inteligentes intertextualidades com religiões, mitologia egípcia, realidade virtual, etc et al, num visual mega colorido de jogo de plataforma. Em cena, acontecem sete coisas diferentes ao mesmo tempo, e achar todas as referências é algo tão minucioso quanto coletar easter eggs.

O personagem principal é Clancy. Verdadeiro arquétipo do pré-adolescente/jovem/adulto que está distraído demais para verdadeiramente se auto conhecer, mas que se acha entendido e iluminado. Inclusive, os personagens com quem Clancy conversa sobre magia e religião têm vozes iguais às dos narradores de aplicativos como headspace e calm. Sacada em cima de sacada!

Toda a série é estruturada em conceitos psicanalíticos. Da fase intra uterina (antes de se lançar a outros universos, Clancy olha dentro de um útero), à oral (o lançamento, em si, é feito por um canhão que é um seio). Clancy não se assusta com nenhuma das situações absurdas com as quais se depara. Tudo que importa para ele é se entorpecer de estimulações externas e gravar podcasts que, basicamente, ninguém escuta.

Não por acaso, Clancy só consegue fazer um verdadeiro exame de consciência no episódio em que tem que lidar com a perda de sua mãe – o melhor da temporada, por sinal, sem desmerecer os outros episódios, que são simplesmente geniais. Numa explosão de conceitos e cores dignas de “The Fountain”, de Aronofsky, o sétimo episódio é uma obra-prima.

O sujeito pós, pós alguma coisa (no Brasil, há quem ainda está a viver na segunda revolução industrial) tenta mascarar seu intrínseco destino, a precariedade de ter um corpo feito de células que irão decair e fenecer. Para tal, o dito sujeito se distrai com dezenas de janelas abertas no smartphone. Se entope de conteúdos como netflix, amazon prime, spotify, deezer, twitter, instagram… vale tudo para se distrair da própria efemeridade. E quem pode dizer que não se identifica?

P.S.: um beijo para minha amiga Isabela, que foi quem me indicou a série.

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Por que choras, Antígona?

Desde que me entendo por gente, diferentes posicionamentos são tomados como oposição. A discordância se torna insulto, verdadeiro ataque pessoal ao emissor de opinião. Cometerei, agora, o acinte da polêmica. É que a isenção anda me irritando em demasia.

“A economia não pode seguir parada”. É o que mais ouço, com algumas irrisórias variantes. Muitos parecem compactuar com uma esdrúxula seleção natural, um quem tiver que morrer, que morra (contanto que não tenham que abrir mão da faxineira). É o espírito do povo que se reflete no presidente da república das bananas, numa vil pergunta: “e daí”?

E daí que seguimos detrás de grossas portas fechadas, assistindo corpos serem atirados em covas improvisadas, da maneira mais indigna possível. O grande dilema de Antígona se refaz, eis que não temos nem mesmo o direito de velar e enterrar nossos mortos.

A civilização faliu. Todo mal-estar advindo da convivência social não me parece valer o esforço do contrato social. Não estamos seguros pela existência do estado. Estamos ameaçados por ele.

Ontem, estava esperançosa; neste fim de noite, para lá de desenganada. O povo brasileiro é verdadeira expressão do triunfo da polis democrática: racista, elitista e machista. A diferença é que eles tinham Sófocles.

P.S.: escutem o podcast do Ed Kivitz no Spotify. Foi o start deste testículo.

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cinema

Tempo de cavalos bêbados

Mal entrei no Mubi, e já estou maravilhada. Por que choras, Netflix?! Em minha segunda incursão na plataforma de cinema de arte, topei com este interessante mix entre documentário e ficção.

Falado majoritariamente em curdo – idioma belíssimo, mas praticamente inexistente na história da sétima arte, por motivos especialmente políticos – essa é uma daquelas crônicas visuais que massacram e afagam o espírito do espectador.

O diretor iraniano Bahman Ghobadi (que já foi assistente de direção do compatriota e magnífico Abbas Kiarostami) faz uma bela estreia. A narrativa acompanha cinco irmãos órfãos que vagam na fronteira entre Irã e Iraque, na mais completa penúria. O irmão mais velho procura desesperadamente por emprego, um outro está gravemente doente; cabe à irmã, talvez, a mais cruel dentre todas as sinas. Sem spoilers.

“Tempos de cavalos bêbados” é uma meditação sobre a brutalidade da natureza humana. O título do filme alude às mulas que peregrinam com os humanos pelo deserto hostil, dominado por minas terrestres. Só mesmo alcoolizados esses animais conseguiriam aguentar a aridez da própria existência. Contrabando, comportamento, amor fraternal… uma estranha mistura de temas, que se demonstra exitosa (apesar de uma certa crueza na direção de arte).

★★★★★★★★ (8)

Tempo de Cavalos Bêbados / Tempo de Embebedar Cavalos (Zamani barayé masti asbha) — Irã, 2000
Direção: Bahman Ghobadi
Roteiro: Bahman Ghobadi
Elenco: Ayoub Ahmadi, Rojin Younessi, Amaneh Ekhtiar-dini, Madi Ekhtiar-dini, Kolsolum Ekhtiar-dini, Karim Ekhtiar-dini, Rahman Salehi, Osman Karimi, Nezhad Ekhtiar-dini
Duração: 80 min.

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Saí da toca

Desde que comecei a cursar Psicanálise e a fazer análise pessoal, a poesia outrora mortificada em mim ressurgiu. O hiato de mais de dez anos foi brutal, um período árido, de muito pouca (para não dizer nenhuma) inspiração.

Nos últimos tempos, os escritos foram brotando de maneira tão profusa, que em pouco tempo já havia material suficiente para um livro. Resolvi colocar a cara no sol, à la Beto Jamaica. Procurei por possíveis editoras, e o resultado foi mais que inesperado: fui aceita por todas. Fiquei com a Letramento pela sensibilidade na proposta para novos autores.

Enquanto “Poeta em Pânico” não sai da toca, saio eu. Criei esse site assim no susto, sem know-how nenhum, mas não podia me dar tempo para tirar a bunda da seringa.

O objetivo principal é compartilhar meus escritos. Sem mais delongas.

“Máxima”

O fundo do poço

é o fim da picada

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